22 abril 2017

Bloquear a recolha de dados em Windows 10

Pequeno instrumento portátil, útil caso a ideia seja limitar os dados extraídos do nosso computador pela Microsoft, é ShutUp.

Que, entre as outras coisas, pode permitir recuperar um pouco de banda, pelo menos aquela parte utilizada para a transmissão dos nossos dados via internet.

Como é sabido, Microsoft recolhe informações e dados sobre o uso dos computadores, afirmando que isso melhora a experiência do usuário e que todas as informações são utilizadas exclusivamente para as pesquisas de marketing. Dado que eu estou a borrifar-me pelo marketing de Microsoft e se quero melhorar a minha experiência como usuário utilizo Linux, eis que surge um programito que permite bloquear a recolha de dados de forma automatizada.

21 abril 2017

Atentado em Paris: a "ajudinha"

Ontem atentado em França. O costume.
Um polícia morto, dois feridos.

E adivinhem? As autoridades conheciam bem o atentador (entretanto abatido).

20 - 15 = 5

O nome é Karim, 39 anos, obviamente muçulmano.
Em 2003 tinha sido condenado a 20 anos de cadeia por ter disparado contra dois polícias em Roissy-en-Brie. Depois a pena foi reduzida para 5 anos.

De 20 para 5? Tomem nota: se a ideia for quebrar a lei, considerem uma deslocação para França. Doutro lado, por qual razão não reduzir a pena ao simpático Karim, considerado que as autoridades sabiam ele ser um radical islâmico?

20 abril 2017

Neoliberalismo, a ideologia na base de todos os nossos problemas

Comprido mas interessante artigo do histórico activista George Monbiot acerca do Neoliberalismo.
Ainda mais interessante se considerarmos que acaba de ser publicado nas páginas dum dos diários mais lido no mundo, o britânico The Guardian.

Vale a pena traduzir, não é? Não?
Pena, traduzi na mesma. 

Imaginem se o povo da União Soviética nunca tivesse ouvido falar de Comunismo. A ideologia que domina as nossas vidas, para a maioria de nós não tem um nome. Citem-a nas vossas conversas e terão em resposta um encolher de ombros. Mesmo que os ouvintes já tenham ouvido esse termo, têm problemas em defini-lo. Neoliberalismo: sabe o que é isso?

O seu anonimato é tanto um sintoma e quanto a causa do seu poder. Desempenhou um papel importante numa ampla variedade de crises: a crise financeira de 2007-8, a deslocalização de riqueza e do poder, da qual os Documentos de Panamá dão apenas um vislumbre, o lento colapso da saúde pública e da educação, o aumento das crianças pobres, a epidemia de solidão, a destruição dos ecossistemas, a ascensão de Donald Trump. Mas nós respondemos a estas crises como se fossem casos isolados, aparentemente sem saber que todas foram catalisadas ou agravadas pela mesma filosofia básica; uma filosofia que tem - ou tinha - um nome. Qual maior poder no actuar em completo anonimato?

O neoliberalismo tornou-se tão difundido que agora raramente o consideramos como uma ideologia. Parecemos aceitar o argumento de que esta fé utópica milenar representa uma força neutra; uma espécie de lei biológica, como a teoria da evolução de Darwin. Mas a filosofia nasceu como uma tentativa consciente para transformar a vida humana e deslocar o lugar do poder.

O Neoliberalismo vê a competição como a característica definidora das relações humanas. Redefine os cidadãos como consumidores, cujas decisões democráticas são melhor exercidas nos termos da compra e venda, um processo que premia o mérito e pune a ineficiência. Afirma que "o mercado" tem vantagens que nunca poderiam ser oferecidas pela economia planificada.

As tentativas de restringir a concorrência são tratadas como hostil à liberdade. Pressão fiscal e regulamentação devem ser reduzidos ao mínimo, os serviços públicos devem ser privatizados. A organização do trabalho e a negociação colectiva por sindicatos são considerados distorções do mercado que impedem o estabelecimento duma hierarquia natural de vencedores e perdedores. A desigualdade é redefinida como virtuosa: um prémio para o melhor e um gerador de riqueza que é redistribuída para baixo para enriquecer todos. Os esforços para criar uma sociedade mais justa são ambos contraproducentes e moralmente repreensíveis. O mercado significa que cada um recebe o que merece.

Nós interiorizamos e espalhamos essa crença. Os ricos vão convencer-se de que eles adquiriram a sua riqueza através o mérito, ignorando as vantagens - tais como a educação, a herança e a classe social de origem - que podem ter ajudado a obtê-la. Os pobres começam a culparem si mesmos pelas suas falhas, mesmo quando pouco podem fazer para mudar a situação.

Sem mencionar o desemprego estrutural: se você não tiver um emprego é porque você ainda não procurou o suficiente. E nem dos custos impossíveis da habitação: se o seu cartão de crédito estiver no vermelho, você tem sido irresponsável e míope. Não importa se os seus filhos já não têm um pátio da escola onde poder jogar: se engordarem, a culpa é sua. Num mundo governado pela competição, quem permanece por trás é definido e percebido como um perdedor.

Entre os resultados, como documentado por Paul Verhaeghe no seu livro What About Me?, existem surtos de auto-lesão, distúrbios alimentares, depressão, solidão, ansiedade de desempenho e fobia social. Talvez não seja surpreendente que a Grã-Bretanha, onde a ideologia neoliberal foi melhor executada, é a capital europeia da solidão. Agora todos nós somos neoliberais.

O termo Neoliberalismo foi cunhado durante uma reunião em Paris, em 1938. Entre os delegados havia dois homens que vieram a definir a ideologia, Ludwig von Mises e Friedrich Hayek. Ambos exilados da Áustria, viam na social-democracia, exemplificada pelo New Deal de Franklin Roosevelt e o desenvolvimento gradual do Estado social britânico, a manifestação dum molde colectivista semelhante ao Nazismo e Comunismo.

No seu livro O Caminho da Escravidão, publicado em 1944, Hayek argumentou que o planeamento do governo, esmagando o individualismo, levaria inexoravelmente ao controle totalitário. Como o livro de Mises, Burocracia, O Caminho da Escravidão teve grande difusão. Atraiu a atenção de pessoas muito ricas, que viram nesta filosofia a possibilidade de quebrar a regulamentação e os impostos. Quando, em 1947, Hayek fundou a primeira organização que iria espalhar a doutrina do Neoliberalismo - a Mont Pelerin Society - foi apoiado financeiramente por milionários ricos e pelas fundações deles.

Com a ajuda deles, começou a criar o que Daniel Stedman Jones descreve em Masters of the Universe como "uma espécie de liberalismo internacional": uma rede transatlântica de académicos, empresários, jornalistas e activistas. Ricos banqueiros pertencentes ao movimento financiaram uma série de grupos de reflexão para refinar e promover a ideologia. Entre eles estavam o American Enterprise Institute, a Heritage Foundation, o Cato Institute, o Institute of Economic Affairs, o Centre of Policies Studies e o Adam Smith Institute. Também financiaram posições académicas e departamentos, especialmente nas universidades de Chicago e da Virgínia.

Enquanto evoluiu, o Neoliberalismo tornou-se mais estridente. A visão de Hayek de governos que deveriam regulamentar a concorrência para impedir a formação de monopólios foi substituída - entre os seguidores americanos como Milton Friedman - pela crença de que o poder do monopólio poderia ser visto como uma recompensa para a eficiência.

No entanto, durante esta transição algo aconteceu: o movimento perdeu o seu nome. Em 1951, Friedman era feliz de descrever-se como um neoliberal. Mas logo depois, o termo começou a desaparecer. Mais estranho ainda, embora a ideologia se tornou mais clara e o movimento mais coerente, o nome perdeu-se não foi substituído por nenhuma outra alternativa aceite.

Na primeira fase, apesar do financiamento ser generoso, o Neoliberalismo ficou à margem. O consenso do pós-guerra era quase universal: as indicações económicas de John Maynard Keynes foram amplamente aplicadas, os objectivos de pleno emprego e redução da pobreza foram compartilhados nos Estados Unidos e grande parte da Europa Ocidental, as taxas sobre os rendimentos elevados eram altas e os governos procuravam os seus objectivos sociais sem obstáculos, criando novos serviços públicos e redes de segurança social.

Mas na década de setenta, quando as políticas keynesianas começaram a desmoronar e as crises económica atingiu ambos os lados do Atlântico, as ideias neoliberais começaram a entrar no mainstream. Como Friedman disse, "quando chegou o momento em que foi preciso mudar [...] havia uma alternativa pronta lá para ser aproveitada". Com a ajuda de jornalistas e assessores políticos, elementos do Neoliberalismo, especialmente da sua orientação sobre a política monetária, foram adoptados pela Administração de Jimmy Carter nos Estados Unidos e pelo governo de Jim Callaghan na Grã-Bretanha.

Depois de Margaret Thatcher e Ronald Reagan terem chegado ao poder, foi rapidamente aplicado o resto do "pacote": enormes cortes de impostos para os ricos, desmantelamento dos sindicatos, desregulamentação, privatização, terceirização e concorrência nos serviços públicos. Através do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial, do Tratado de Maastricht e da Organização Mundial do Comércio, foram aplicadas as políticas neoliberais - muitas vezes sem o consentimento democrático - em grande parte do mundo. A coisa mais notável foi a adopção do Neoliberalismo entre os partidos que uma vez pertenciam à Esquerda: o Partido Trabalhista e os democratas, por exemplo. Como observa Stedman Jones, "é difícil pensar numa outra utopia que tenha sido tão plenamente realizada".

Pode parecer paradoxal que uma doutrina que promete escolha e liberdade foi promovida com o slogan There is no alternative ["Não há alternativa", ndt]. Mas como Hayek comentou durante uma visita no Chile de Pinochet - um dos primeiros Países onde o programa foi amplamente aplicado - "a minha preferência pessoal se inclina para uma ditadura liberal em vez que para um governo democrático desprovido de liberalismo". A liberdade que o Neoliberalismo oferece, que soa tão atraente se feita em termos gerais, revela-se liberdade para o peixe grande, não para os peixinhos.

Liberdade dos sindicatos e da negociação colectiva significa liberdade para suprimir os salários. Liberdade da regulamentação significa liberdade para envenenar os rios, pôr em perigo os trabalhadores, aplicar taxas de juros abusivas e inventar instrumentos financeiros exóticos. Liberdade dos impostos significa liberdade da redistribuição da riqueza, que tira as pessoas da pobreza.

Como documentado por Naomi Klein no seu Shock Doctrine, os teóricos neoliberais têm defendido o uso da crise para impor políticas impopulares, aproveitando a distração criada pela crise: assim aconteceu durante o golpe de Estado de Pinochet, a guerra no Iraque e o furacão Katrina, este último descrito por Friedman como "uma oportunidade para reformar radicalmente o sistema educacional" de New Orleans.

Onde as políticas neoliberais não podem ser impostas a nível nacional, são aplicadas internacionalmente através de acordos comerciais que incorporam a chamada "resolução de litígios entre investidores e Estado", tribunais no estrangeiro onde as grandes empresas podem fazer lobby para a remoção de proteções sociais e ambientais. Quando os parlamentos têm votado a favor da limitação da venda de cigarros, ou para proteger o abastecimento de água contra as empresas de mineração, para congelar as suas contas da energia ou evitar o aumento excessivo dos preços por parte das empresas farmacêuticas, as empresas fazem causa, muitas vezes com sucesso. A Democracia é reduzida a um teatro.

Outro paradoxo do Neoliberalismo é que a competição universal é baseada na comparação e na selecção igualmente universal. O resultado é que os trabalhadores, os desempregados e os serviços públicos de qualquer tipo estão sujeitos a um sistema pernicioso e sufocante de avaliação e monitorização, concebido para identificar os vencedores e punir os perdedores. A doutrina ensinada por Von Mises, que deveria nós libertar do pesadelo do planeamento central burocrático, ao contrário tem feito mesmo isso.

O Neoliberalismo não foi concebido como um mecanismo auto-referencial, mas tornou-se tal rapidamente. O crescimento económico tem sido marcadamente mais lento na era neoliberal (desde 1980 na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos) do que nas décadas anteriores; mas não para os mais ricos. A desigualdade na distribuição da riqueza, após 60 anos de declínio, agora está novamente a aumentado rapidamente devido à destruição dos sindicatos, aos cortes de impostos, ao aumento das receitas, privatização e desregulamentação.

A privatização e a mercantilização dos serviços públicos, como energia, água, transportes, saúde, educação, estradas e prisões, tem permitido às grandes empresas impor tarifas sobre bens essenciais e pretender o pagamento para o acesso de cidadãos e governos. Quando você paga um preço "inflado" para um bilhete de comboio, apenas parte do preço compensa os operadores do gasto em combustível, salários, material circulante e outras despesas. O resto reflecte o facto deles vos terem posto de costas para a parede.

Aqueles que possuem e operam o serviços privatizados ou semi-privatizados no Reino Unido fazem enormes fortunas investindo pouco e ganhando muito. Na Rússia e na Índia, os oligarcas têm adquirido activos anteriormente do Estado, através do vendas de baixo custos. No México, a Carlos Slim foi concedido o controle de quase toda a telefonia fixa e móvel, tornando-se assim o homem mais rico do mundo.

A financeirização da economia, como observado por Andrew Sayer em Why We Can’t Afford the Rich, teve um impacto similar. "Os interesse são rendimentos não do trabalho, que amadurecem sem qualquer esforço". Dado que os pobres ficam cada vez mais pobres e os ricos ficam mais ricos, os ricos estão a ganhar mais controle sobre outro recurso crucial: o dinheiro. Os pagamentos de juros, na maior parte dos casos, é uma transferência de dinheiro de pobres para ricos. Enquanto os preços dos imóveis e o fim do financiamento carregam as pessoas de dívida, os bancos e os seus executivos ganham.

Sayer diz que as últimas quatro décadas têm sido caracterizadas por uma transferência de riqueza não só de pobres para ricos, mas também entre as fileiras dos ricos: daqueles que fazem dinheiro com a produção de novos bens ou serviços para aqueles que fazem dinheiro através do controle dos activos existente e obtendo juros, rendimentos, ganhos de capital. O rendimento do trabalho foi suplantado pelo rendimento sem trabalho.

As políticas neoliberais estão afectadas por fracassos do mercado em todos os lugares. Não apenas os bancos são grandes demais para falir (too big to fail), mas também o são as empresas agora responsáveis pela prestação de serviços públicos. Como Tony Judt apontou no seu livro Ill Fares The Land, Hayek esqueceu de que os serviços públicos vitais para um País não podem falhar, o que significa que a concorrência não pode seguir o seu curso. Os investidores têm lucros, o Estado assume os riscos.

Quanto maior o fracasso, mais extrema se torna a ideologia. Os governos neoliberais usam a crise como pretexto e oportunidade para cortar impostos, privatizar os serviços públicos, criar rasgos na rede de segurança social, desregulamentar negócios e disciplinar os cidadãos. O Estado auto-destrutivo agora afunda os seus dentes em cada órgão do sector público.

Talvez o impacto mais perigoso do Neoliberalismo não é a crise económica que causou, mas a crise política. Como o peso do Estado é reduzido, reduzida é a nossa capacidade de mudar o rumo das nossas vidas através do voto. Em vez disso, a teoria neoliberal afirma que as pessoas podem exercer a sua escolha através das compras. Mas alguns têm mais dinheiro para gastar do que outros: na democracia do consumidor ou do acionista, os direitos de voto não são igualmente distribuídos. O resultado é uma redução dos direitos dos pobres e da classe média. Enquanto os partidos de Direita e da ex-Esquerda adoptam políticas neoliberais semelhantes, a redução dos poderes do Estado significa uma revogação dos direitos. Um grande número de pessoas foram excluídas da política.

Chris Hedges observa que "os movimentos fascistas constroem as suas bases não nos activistas, mas naqueles que são politicamente inactivo, os perdedores que percebem, muitas vezes de forma correcta, que não podem dizer nada no mundo político". Quando o debate político não fala para todos, então as pessoas se tornam sensíveis aos slogans, símbolos e sentimentos. Para os admiradores de Trump, por exemplo, os factos e os argumentos parecem não relevantes.

Judt explicou que quando a densa rede de interações entre pessoas e Estado é reduzida a nada, a não ser autoridade e obediência, a única força que nós une é o poder do Estado. O totalitarismo de Hayek tem mais probabilidade de surgir quando os governos, depois de perder a autoridade moral que provém da prestação dos serviços públicos, são reduzidos a "persuadir, ameaçar e, eventualmente forçar as pessoas a obedecer".

Como o Comunismo , o Neoliberalismo é o Deus que falhou. Mas a doutrina-zombie vacila e uma das razões é o seu anonimato. Ou melhor, um conjunto de anonimatos.

A doutrina invisível da mão invisível é promovida por apoiantes invisíveis. Lentamente, muito lentamente, começamos a descobrir os nomes de alguns deles. Vemos que o Institute of Economic Affairs, que apoiou fortemente a campanha mediática contra a nova regulamentação do sector do tabaco, foi secretamente financiada pela British American Tobacco desde 1963. Descobrimos que Charles e David Koch, dois dos homens mais ricos do mundo, fundaram a instituição que criou o movimento Tea Party. Descobrimos que Charles Koch, na criação dum dos seus think tank, observou que "a fim de evitar críticas indesejadas, não deveria fazer-se muita publicidade sobre a maneira como a organização é controlada e dirigida".

As palavras usadas pelo Neoliberalismo muitas vezes escondem mais do que esclarecem. "O mercado" soa como um sistema natural que poderia ser comparado à gravidade ou à pressão atmosférica. Mas é repleta de relações de poder. O que "o mercado quer" significa "o que as empresas e os seus líderes querem". "Investimento", como observado por Sayer, significa duas coisas muito diferentes. Uma delas é o financiamento de actividades produtivas e de serviços à comunidade; a outra é a compra de activos existentes, a fim de obter um rendimento, juros, dividendos e ganhos de capital. Usar a mesma palavra para diferentes actividades "camufla as fontes de riqueza", o que nós leva a confundir a "extração" de riqueza da "criação" de riqueza.

Este anonimato e esta confusão misturam-se na opacidade sem nome do Capitalismo moderno: o modelo de franchising garante que os trabalhadores não sabem exactamente para quem trabalham; empresas registradas offshore atrás duma complexa rede de segredo em que nem mesmo a polícia pode rastrear os verdadeiros donos; regimes fiscais brincam com os governos; produtos financeiros que não se entendem.

O anonimato do Neoliberalismo é ferozmente defendido. Aqueles que são influenciados por Hayek, Mises e Friedman tendem a rejeitar o termo porque - e com razão - é agora usado apenas num sentido depreciativo. Mas não oferecem uma alternativa. Alguns chamam-se libertários ou liberais clássicos, mas essas descrições são estranhamente enganosas, uma vez que sugerem que nos livros O Caminho da Escravidão e Burocracia ou no clássico de Friedman, Capitalismo e Liberdade, não haja realmente nada de novo.

Por todas estes razões, no projecto neoliberal há algo admirável, pelo menos nos seus estágios iniciais. Era uma filosofia peculiar, inovadora, promovida por uma rede de pensadores coerentes e activistas com um plano de acção claro. Trazida para a frente com paciência e tenacidade. O caminho da escravidão tornou-se o caminho para o poder.

O triunfo do Neoliberalismo também reflecte o fracasso da Esquerda. Quando em 1929 a economia do laissez-faire levou à catástrofe, Keynes concebeu uma teoria económica abrangente para substituí-la. Quando na década de '70 a gestão da procura keynesiana saiu do caminho, havia uma alternativa pronta. Mas quando em 2008 o neoliberalismo entrou em colapso, houve ... nada. Eis a  razão da marcha dos zombies. A Esquerda e o Centro não produziram qualquer nova visão geral do pensamento económico ao longo de 80 anos.

Cada invocação de Lord Keynes é uma admissão de fracasso. Propor soluções keynesianas para a crise do século 21 é ignorar três problemas óbvios. É difícil mobilizar as pessoas em torno de velhas ideias; as falhas destacadas nos anos '70 não desapareceram; e, acima de tudo, não levam em conta a nossa mais grave emergência: a crise ambiental. O Keynesianismo funciona estimulando a procura do consumidor para promover o crescimento económico. A procura dos consumidores e o crescimento económico são motores da destruição ambiental.

O que a história do keynesianismo e do Neoliberalismo nós mostra é que nenhum deles se mostrou adequado para compensar a criticidade do sistema. Temos de oferecer uma alternativa coerente. Para os trabalhistas, os democratas e a Esquerda em geral, a tarefa principal deveria ser desenvolver um programa económico como o Apollo [o programa espacial, ndt], uma tentativa madura para projectar um novo sistema personalizado para as necessidades do século 21.

Comprido, não é? Eu bem avisei.
Mas interessante, pois fonte de inúmeras reflexões.
Pessoalmente acho muita fraca a última parte pelas seguintes razões:
  1. o keynesianismo não falhou, simplesmente a economia foi voluntariamente conduzida por ruas extremamente arriscadas, com custos que foram "socializados". Não estamos muito longe do Comunismo aplicado na antiga União Soviética, até a organização da nossa sociedade (a elite, o tal 1%) é o espelho da Nomenklatura de Moscovo.
  2. não estou nada convencido de que a procura dos consumidores e o crescimento económico sejam os motores da destruição ambiental. Isso é verdade hoje, nesta sociedade, neste sistema. Mas extrapolar um lei universal tendo como base um sistema falhado (o nosso) é obtuso. O problema é bem mais complexo e tem a ver com quem gere os recursos (só privados hoje), a presença dum elemento regulador (o Estado), o papel do cidadão-consumidor (que tem de evoluir), o tipo de procura (claro que se promovemos o último iPhone como máximo do bem-estar...), os bens produzidos...
  3. se o novo sistema "personalizado para as necessidades do século 21" tem que ser encontrado na Esquerda, então melhor ficar assim e morrer na paz do Senhor. Não pode haver nenhum novo sistema digno deste nome até quando não for ultrapassada a fictícia dualidade Esquerda-Direita. E pensar que só um destes lados possa encontrar uma solução, significa propor o mesmo erro de sempre. É tempo de olhar além.

Ipse dixit.

Fonte: The Guardian

19 abril 2017

Portugal: o sarampo

Neste dias, em Portugal, está ao rubro a polémica acerca das vacinas. Há um surto de sarampo e pais
indignados gritam a partir dos microfones das rádios porque outros pais recusam vacinar os seus filhos: há quem espere que a vacinação se torne obrigatória.

A maior parte das pessoas indignadas nem sabe distinguir uma aspirina dum antibiótico, mas mesmo assim repetem o que ouviram dizer: as vacinas são boas, as vacinas fazem só bem, quem contraria as vacinas é um ignorante.

Eu sou ignorante, admito não ser capaz de entender se uma vacina for boa ou má. E nem entendo entrar na estéril polémica entre quem defende todas as vacinas e quem acha serem estas instrumentos da Nova Ordem Mundial. Simplesmente, pergunto algumas coisas.

Por exemplo: é normal que nas vacinas haja estes excipientes?
  • células de rim de macacos verdes africanos
  • culturas de células de fibroblastos diplóides humanos derivados de abortos
  • soro fetal de bovino
  • cultura de Dulbecco modificada (aves selvagens)
  • embriões de galinha 
  • circovírus suíno (um vírus mortal que afecta os porcos selvagens) 
  • células de rins caninos
  • ureia
  • ovos de traças
Este ingredientes podem ser encontrados no sito internet do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), a agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos que trabalha no âmbito da saúde e da prevenção. São alguns dos excipientes utilizados na preparação de algumas das vacinas mais comuns.

Admitimos: nem todos os pais podem estar satisfeitos com a ideia de injectar nos seus filhos as células dum macaco africano ou um vírus que mata os porcos.

O que nós leva até a segunda questão. Se em Portugal arriscamos o Armageddon por causa do sarampo, seria muito simples organizar uma campanha informativa que eliminasse todas as dúvidas. Nada de spot publicitários do tipo "vacinar-se é bom", mas algo que explicasse de forma clara e além de qualquer dúvida (isso é: com dados, estudos, pesquisas, testes e não só com palavras):
  • que as vacinas foram determinantes na erradicação de algumas doenças
  • que os componentes utilizados (inclusive aqueles "estranhos" como os citados acima) são necessários porque desenvolvem uma função indispensável no processo de actuação da vacina
  • que a subministração das vacinas não comporta nenhum tipo de perigo para as crianças, nem no curto nem no longo prazo
É claro que para oferecer um serviço deste tipo seria precisa uma assinalável quantia de dados, como por exemplo os históricos. Mas estamos em 2017, nada disso seria impossível. E todos poderiam ter uma ideia clara e definitiva acerca das vacinas. Custaria muito?

Tudo isso não seria um "favor" aos cidadãos mas seria parte integrante dum qualquer serviço de saúde que não tem apenas a tarefa de passar as receitas para os antibióticos, mas sobretudo deve informar de forma ampla e clara acerca das boas práticas para manter-se saudável.

Se existem pessoas que hoje duvidam das vacinas, isso não acontece por uma questão de moda: em outras partes do Mundo as vacinas mataram. E esta não é uma afirmação saída dum blog conspiracionista mas das aulas dos tribunais (ver caso da Índia).

Eu acho que todas as pessoas desejam saúde, para si e para os seus entes queridos. Se as pessoas tiverem os elementos para poder efectuar uma escolha em prol duma maior protecção, por qual razão recusar? Se as vacinas proporcionam mais bem- estar e o sistema de saúde não fornece aos cidadãos os elementos necessários para poder tomar decisões conscientes, quem está em falta?


Ipse dixit.

Fonte: CDC - Vaccine Excipients e Media Summary (ficheiro Pdf, inglês)

16 abril 2017

Síria: o falso vídeo dos Capacetes Brancos

Após o ataque químico na Síria, foram difundidas imagens de socorristas que actuavam para salvar as
vidas de algumas crianças. Os socorristas . neste caso, eram os Capacetes Brancos, uma ONG que opera nas zonas ocupadas pelos rebeldes, contrários ao regime de Assad.

O site Veterans Today afirma que a organização Swedish Doctors for Humans Rights (SWEDHR) analisou as imagens, chegando às seguintes conclusões:
  • o vídeo mostra as medidas salva-vidas que são tomadas depois de um ataque químico com gás cloro, incluindo uma injecção de adrenalina com seringa e uma longa agulha que entra no coração da criança. De nenhuma forma são fornecidos à criança tratamentos adequados contra os danos provocados por um agente químico.
  • a gestão e o tratamento da criança foram efectuados de modo imprudente, perigoso e de forma a provocar graves danos.
  • eloquentes são as falsas e repetidas injecções de adrenalina no coração. A equipe médica nunca conseguiu empurrar o líquido da seringa no corpo. Na verdade, o conteúdo da seringa não foi injectado de todo.
  • o diagnóstico feito por médicos especialistas, com base no que é observado no vídeo, afirma que a criança se encontrava sob a influência duma injecção de opiáceos e, provavelmente, iria morrer de overdose. Não há evidência de qualquer outro agente, químico ou diferente.
  • nenhuma das crianças nos vídeos mostra sinais de ter sido vítima dum ataque químico.
Veterans Today afirma que foi a falsa injecção que matou a criança. Portanto, um homicídio intencional, encenado para fazê-lo parecer um tratamento médico após o ataque químico alegadamente sírio.

Veterans Today também afirma que a tradução das frases árabes ouvidas durante as imagens são falsas: os originais seriam instrucções dadas para que a criança pudesse ser gravada de forma melhor e não directivas médicas.

SWEDHR, uma ONG formada com a participação de professores, doutorados, médicos e investigadores universitários nas ciências médicas e nas disciplinas relacionadas com a saúde, emitiu um comunicado para retificar parcialmente quanto afirmado por Veterans Today:
Os médicos suecos para os direitos humanos nunca acusaram os Capacetes Brancos de "assassinar crianças". Nem temos acusado de tal atrocidade o pessoal mostrado no vídeo publicado pelos Capacetes Brancos. Tomámos especial cuidado em formular as nossas conclusões no sentido de excluir qualquer acusação de homicídio intencional. Esta é, em vez disso, a conclusão alcançada pelo autor do artigo da SWEDHR, Prof. Marcello Ferrada de Noli, depois que dos médicos da SWEDHR terem examinados os vídeos publicados pelos Capacetes Brancos no YouTube:
Os procedimentos salva-vidas sobre as crianças mostrados nos vídeos dos Capacetes Brancos são falsos, realizados em crianças mortas. A seringa utilizada na "injeção intracardial" realizada no bebé de sexo masculino estava vazia, ou o seu fluido nunca foi injectado na criança. Esta mesma criança mostrou, brevemente, discretos sinais de vida (incertos) no primeiro segmento de WH Vid-1 [White Helmets Video, ndt]. Se assim for, esta criança pode ter morrido durante o lapso em que as manobras "salva-vidas" mostradas no filme dos Capacetes Brancos foram realizadas (o que não é o mesmo que afirmar que o pessoal observado nos vídeos provocou a morte do bebé. Em termos forenses, a causa real da morte, bem como a modalidade e a intencionalidade, pertencem a assuntos diferentes daqueles tratados na nossa análise).
Conclusões apoiadas por uma conferência de imprensa realizada no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Moscovo, publicada pela emissora RT.

Vamos observar o vídeo dos Capacetes Brancos.

ATENÇÃO
O seguinte vídeo contém imagens que podem facilmente impressionar o público sensível.
É aconselhada cautela.

14 abril 2017

A mãe de todas as estupidezes

Confesso que ao ler a notícia dos EUA terem lançado a "mãe de todas as bombas não nucleares"
sorri. É algo tipicamente norte-americano, é tipicamente trumpiano. Algo tanto espectacular quanto inútil, que denota uma total falta de entendimento da realidade. Muita Hollywood e pouco cérebro.

O lançamento da Gbu-43 tem dois aspectos fundamentais.

Em primeiro lugar lembra de que a guerra no Afeganistão nunca acabou, apesar dos proclamas. É a mais antiga guerra em acto, uma guerra que os EUA não conseguem ganhar. Antes os talibans e Al-Qaeda, agora o Isis: seja como for, Washington é desde 2001 que gasta dinheiro para controlar um território que não quer ser controlado. A União Soviética demorou 10 anos para entender que aquele País, feito duma miríade de vales escondidas, cavadas nas áridas montanhas, era algo sério. Aos Estados Unidos ainda não foram suficientes 16 anos para conseguir abandonar a ilusão de poder ganhar.

O segundo aspecto em realce é que o anuncio do lançamento foi feito pelos mesmos americanos, quase fosse um spot publicitário do Pentágono. é a confirmação de que em Washington a facção militar está a ganhar poder, cada vez mais. É um regresso à velha maneira de conduzir a política exterior, com mais botas no chão e menos trocas diplomáticas.

A Gbu-42 representa 9.5 metros de valor estratégico nulo, cujo fim é só enviar um sinal de potência para o exterior. São 8.5 toneladas de explosivo que não podem resolver conflito nenhum, servem apenas para mostrar as ideias do novo Presidente. E não parecem grandes ideias se acha que os problemas com o mundo árabe podem ser resolvidos com as mega-bombas...

No seguinte vídeo, o momento do impacto:


Pormenor que não deixa de ser irónico: a bomba serviu para destruir uma rede de tunneis construídos pelos EUA durante a ocupação soviética.


Ipse dixit.

12 abril 2017

David Rockefeller: antes tarde...

No mês passado abandonou-nos David Rockefeller.

Este grande homem, que tanto fez para si mesmo, morreu prematuramente com 101 anos de idade e lembrar agora de todos os sucessos por ele alcançados é tarefa inglória, pois de certeza que muitos ficariam fora duma eventual lista.

Mas vamos relembrar apenas alguns deles, como devido tributo a uma pessoa que pertencia a um restrito círculo de seres humanos: os que nunca deveriam ter nascidos.

O simpático David viu a luz em New York, no humilde prédio de oito andares propriedade do pai, John Davison Rockefeller Jr., por sua vez filho do fundador da Standard Oil, John Davison Rockefeller Sr.

Em 1936 conseguiu licenciar-se cum laude na Universidade de Harvard, depois frequentou a London School of Economics (onde conheceu John Fitzgerald Kennedy) e trabalhou uns tempos na local filial do banco Chase Manhattan. Mas era claro que o simpático David tinha outros objectivos na vida.

Em 1939, junto com os seus quatro irmãos (Nelson, John D. III, Laurance e Winthrop), financia um grupo ultra secreto de Estudos de Guerra & Paz junto ao Conselho de Relações Exteriores de New York, que era o mais influente think tank dos Estados Unidos, também já controlado pelos irmãos Rockefeller.

A ideia era simples: reunir especialistas de vários sectores para programar o fim da Segunda Guerra Mundial. Que nem tinha eclodido ainda. Mas o projecto era importante e merecia uns esforços: afinal na calha estava nada menos de que o Século Norteamericano.

Foram dispostas as peças: os irmãos Rockefeller doaram a terra, em Manhattan, onde foi erguido o Quartel General da ONU (no processo lucraram bilhões por causa da valorização dos terrenos adjacentes, também de propriedade dos irmãos, mas este foi sem dúvida um inesperado efeito colateral). A facção Rockefeller criou a Guerra Fria contra a União Soviética, porque é sempre preciso um bom inimigo. Criou também a Nato, para que os Países da Europa Ocidental ficassem complacentes vassalos.

O petróleo

No meio disso, obviamente não podia ser ignorado o petróleo, que tanta felicidade já tinha proporcionado à família.

Henry Kissinger, conselheiro político de David Rockefeller desde 1954, esteve envolvido em todos os maiores projectos dos irmãos: foi ele que manipulou secretamente a diplomacia no Médio Oriente para justificar o embargo sobre o petróleo árabe em 1973.

Não deve admirar: a crise do petróleo, entre 1973 e 1974, foi orquestrada por uma organização secreta criada por David Rockefeller nos anos '50, conhecida como Grupo Bilderberg. Em Maio de 1973, o simpático David e os presidentes das maiores companhias petrolíferas dos Estados Unidos e do reino Unido encontraram-se em Saltsjoebaden, na Suécia, no meeting anual do Grupo Bilderberg para planear a crise do petróleo. A culpa foi atirada por cima dos “gananciosos xeques petroleiros”. Dessa forma, o Dólar dos Estados Unidos, em queda abrupta, foi salvo e os bancos de Wall Street, entre os quais o Chase Manhattan de David Rockefeller, se tornaram os maiores do mundo.

Nos anos '70, Kissinger assim resumiu a estratégia de David Rockefeller:
Se você controla o petróleo, controla nações inteiras; se você controla a comida, controla o povo; e se você controla o dinheiro, controla o mundo inteiro.
Ah, pois: onde está o dinheiro?

O dinheiro

Do site Information Clearing House:
David Rockefeller foi presidente do Chase Manhattan Bank, o banco de família. Também foi o responsável por nomear vice-presidente do Chase Paul Volcker, o presidente da Federal Reserve sob o governo Carter que implementou a terapia de choque da "taxa de juros Volcker" que, mais uma vez, salvou o Dólar em queda e os lucros de Wall Street, incluindo, claro, o Chase, às custas da economia mundial.

A “terapia de choque” das taxas de juros de Volcker, em Outubro de 1979, apoiada por Rockefeller, criou a terceira crise mundial da dívida nos anos '80. Rockefeller e Wall Street usaram a crise dos débitos para forçar as privatizações estatais e a drástica desvalorização das moedas em Países como a Argentina, Brasil e México. Assim, Rockefeller e os seus amigos como George Soros, se apoderaram das joias da coroa desses Países a preço de saldo.

O modelo foi muito parecido com o usado pelos bancos ingleses contra o Império Otomano depois de 1881, quando eles tomaram de facto o controle das finanças do Sultão, através do controle de todas as receitas fiscais através da Dívida da Administração Pública dos otomanos. Rockefeller usou a crise da dívida de 1980 em proveito próprio para saquear os Países endividados da América Latina e da África, usando o FMI como a sua polícia financeira. Ele era amigo pessoal de alguns dos mais selvagens e sanguinários ditadores na América Latina, entre eles o General Jorge Videla na Argentina ou Pinochet no Chile, os quais conseguiram os seus empregos através de golpes arranjados pela CIA, ordenados pelo então Secretário de Estado Henry Kissinger, que estava por trás dos interesses da família Rockefeller na América Latina.

Através de organizações como a sua Comissão Trilateral, Rockefeller foi o principal arquitecto da destruição de várias economias nacionais e fez avançar a assim chamada Globalização, uma política que beneficia principalmente os grandes bancos de Wall Street, a City de Londres e um grupo selecto de corporação globais – os mesmos que são membros convidados da Comissão Trilateral. A Comissão Trilateral foi criada por Rockefeller em 1974. A seguir deu ao seu grande amigo Zbigniew Brzezinski o trabalho de escolher os membros nos Estados Unidos, Japão e Europa.

É verdade, dito assim o simpático David pode parecer até um pouco malandreco. Mas não podemos esquecer a outra face da moeda: David Rockefeller era um filantropo.

A filantropia 

David Rockefeller amava os homens. Talvez não todos, mas a maioria sim, Ou pelo menos alguns.

É por isso que em 1939 os Rockefeller já financiavam a pesquisa biológica no Instituto Kaiser Wilhelm em Berlim. Era a eugenia nazista, a tentativa de criar uma raça superior e a eliminação, com a esterilização, daqueles que são considerados “inferiores”. A eugenia nazista era financiada pelos Rockefeller, tal como pela Standard Oil, de propriedade da família, que violava alegremente as leis dos Estados Unidos e fornecia combustível aos aviões da Força Aérea Nazista durante a guerra.

Depois da Guerra, os irmãos Rockefeller trouxeram para o Ocidente alguns daqueles cientistas nazis, para que os estudos fossem continuados. Perguntem à Cia, perguntem donde saiu o Projecto MKUltra: foi a filantropia dos Rockefeller..

Nos anos '50, os Rockefeller fundaram o Conselho Populacional para a eugenia avançada, disfarçada de pesquisa populacional e controle da natalidade. Nos anos '70, eram responsáveis por um projecto secreto do governo dos EUA, dirigido por Kissinger, Assessor do Conselho Nacional de Segurança dos Rockefeller, intitulado NSSM-200: “Consequências do Crescimento da População Mundial para a Segurança dos Estados Unidos e os seus Interesses Além Mar”.

O projecto questionava o crescimento populacional em Países em desenvolvimento com matérias primas estratégica como petróleo ou minerais: o aumento da população era uma “ameaça para a segurança nacional” dos Estados Unidos, porque poderia fazer crescer a procura por essas matérias primas nos Países de origem. Ou seja: os Países nos quais ficavam os recursos poderiam ter tido o desejo de utilizar aqueles mesmos recursos. Francamente ridículo. O NSSM-200 fez dos programas de redução populacional uma condição essencial para receber a ajuda dos Estados Unidos.

Nos anos '70, a Fundação Rockefeller também financiou em conjunto com a Organização Mundial de Saúde o desenvolvimento duma vacina especial contra o tétano que limitava o crescimento populacional ao tornar as mulheres incapazes de manter uma gestação.

Fundação Rockefeller significa Monsanto, uma parceria no âmbito da manipulação genética. Objectivo: modificar o ADN das plantes e utilizar o controle genético para poder gerir a cadeia alimentar de seres humanos e animais. Hoje, mais de 90% de todas as sementes de soja que crescem nos Estados Unidos são OGM, juntamente com mais de 80% de todo o milho e o algodão.

Vamos concluir com aquela que sem dúvida  é melhor foram para lembrar o simpático David: com as palavras dele.

A primeira é uma piada:
Eu acredito que o governo é o servo do povo e não o seu dono.
A segunda é uma confissão:
Alguns até acreditam que nós (família Rockefeller) fazemos parte de uma cabala secreta que trabalha contra os melhores interesses dos Estados Unidos, caracterizando a minha família e eu como "internacionalistas", e que conspira com outras pessoas ao redor do mundo para construir uma estrutura global política e económica mais integrada. Um só mundo, se você quiser. Se essa é a acusação, eu declaro-me culpado, e estou orgulhoso disso
Titula a revista portuguesa Sábado:
David Rockefeller, um homem de bem com todos (1915-2017)
Não. Para boa sorte nem todos somos assim.


Ipse dixit.

(Agradecimento especial para a Sempre Muy Nobre Maria por ter sugerido o artigo!)

Fontes: Information Clearing House, Sabado

11 abril 2017

Da Liberdade

- Para que vieste até aqui? Tens algo para dizer? Algo que não sabemos? Duvido. Sabes, estes apelos para a liberdade deixam-me enjoado. Para que vieste aqui outra vez? Antes de ti muitos outros tinham passado. E mesmo que alguém te siga, fazemos de conta algumas centenas de pessoas...  o que achas vai acontecer ao biliões que nunca por nunca irão abandonar as cómodas vidas deles? Para quê? Em troca dos teus valores abstractos? Sabes, também eles querem ser felizes ou para ti a massa já não é feita de seres humanos?

- A liberdade é o direito de escolher.

-O quê? Que idiotice é esta? Mas consegues entender em qual altura vives tu? A liberdade hoje é poder clicar entre mil canais, descarregar porno gratuitamente ou, mais simplesmente, fazer tudo aquilo por causa do qual nada te irá acontecer. E a massa aceita isso. Tu nem entendes quanto tivemos que pagar para promover esta ideia. Mas resultou: já estão convencidos de que o homem não está livre pelo simples facto de ter nascido... nada disso: acham mesmo que tem que ganhar a sua liberdade.

10 abril 2017

Trump mobiliza 150 mil reservistas

Um sinal alarmante: o Exército dos EUA está a enviar, neste momento, cartas para 150 mil
reservistas com o aviso de mobilização.

O anúncio oficial do Ministério da Defesa será dado em breve, mas alguns reservistas já receberam a carta e as notícias começam a circular. De acordo com esses rumores, o objectivo do Pentágono seria ter à disposição a força completa dentro de um par de semanas.

Cento e cinquenta mil reservistas: para fazer o quê?
Ninguém quer atacar os EUA, portanto são soldados para serem utilizados fora do País.

Um ataque em grande estilo na Síria? Bater Damasco e a seguir Teherão? Ou a Coreia do Norte? Improvável? Nem tanto: mesmo ontem chegou a notícia segundo a qual a China colocou 150.000 tropas para proteger-se contra uma eventual situação inesperada durante os treinos militares em conjunto com a e Coreia do Norte.

Seja como for, temos de assumir que a estratégia de Donald Trump mudou. Se durante a campanha eleitoral a ideia era concentrar-se no interior dos EUA, deixando que os outros Países resolvessem os problemas com os meios deles, antes o ataque com os mísseis Tomahawk e agora a mobilização dos reservistas indicam que as coisas mudaram: esta é a estratégia neoconservadora.

Não é por acaso que Assad, o governo iraniano e o Kremlin nestes dias declararam que "o ataque dos EUA contra a base síria superou muitas linhas vermelhas" e que de agora em diante "responderão com força a qualquer agressão ".


Ipse dixit.

Fontes: Il Giornale, Donga.com

07 abril 2017

Suécia: onde é que já vimos isso?

Atendado em Estocolmo.
Pessoal, o que pode ser dito? Vamos fazer um copia/cola, pescando num dos atentados anteriores? Berlim? Nice? O esquema é sempre o mesmo: camião roubado atirado contra as pessoas. O Presidente da câmara já fala de atentado.

Nas próximas horas?
O homem é de origem medio-oriental, entre 25-40 anos, vive na Suécia há alguns meses; é conhecido pelas autoridades por pequenos crimes ou por ter ideias radicais ligadas à religião. Os pais dele não acreditam, os vizinhos dizem que era um rapaz simpático, sempre disponível.

Choque no mundo, solidariedade em Paris (onde pintam o Arco de Triunfo com os colores da Suécia, em Berlim (Porta de Brandeburgo), em Lisboa (onde pintam a estátua do Marquês de Pombal com as cores do Benfica).

Em Bruxelas a classe política exprime indignação, mas temos que ir em frente, não podemos baixar a cabeça, se mudarmos seria uma vitória dos terroristas.

As fotografias das vítimas: uma jovem estudante da universidade, um rapaz que estava prestes a casar-se, outros imigrante. Para boa sorte não há crianças, aquelas morrem só na Síria.

O terrorista afinal é encontrado mas morre numa troca de tiros com a polícia. Pena, teria sido muito interessante falar com ele.

Tudo igual, até da próxima vez.
Obviamente espero estar enganado, mas assim vão as coisas nos últimos tempos.


Ipse dixit.

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